Sem recursos judiciais, Bar do Armando apela à mobilização popular contra despejo no Centro de Manaus
Após esgotar todas as vias jurídicas para manter o Bar do Armando no Largo de São Sebastião, a proprietária do estabelecimento, Ana Cláudia Soeiro Soares, fez um apelo público nesta segunda-feira (13). Em coletiva de imprensa, ela convocou a sociedade amazonense a abraçar a causa para evitar que o tradicional reduto cultural, que funciona no mesmo endereço há 63 anos, seja despejado do imóvel pertencente à Igreja Católica.
“Já não temos mais como lutar juridicamente para reverter essa situação. Agora só nos resta a força do povo amazonense, que reconhece o Bar do Armando como um espaço histórico e cultural”, desabafou.
Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas desde 2015, o bar é um dos maiores símbolos da boemia e da identidade de Manaus. Foi ali que nasceu a Banda da Bica, uma das agremiações carnavalescas mais tradicionais do estado, que também detém o título de patrimônio imaterial.
Memória afetiva e polêmica sobre o imóvel
Emocionada, Ana Cláudia relembrou sua infância nos fundos do estabelecimento. “Eu nasci na Beneficência Portuguesa e vim direto para cá. Meu quarto ficava bem aqui atrás. Vivi neste lugar até os 13 anos. Saber que posso sair dói na alma. É como se isso fosse meu, mesmo sabendo que pertence à Igreja”, relatou.
Ela também aproveitou a oportunidade para desmentir boatos de que a família teria tentado se apropriar do espaço por meio de usucapião.
“Desafio qualquer pessoa a provar que algum membro da minha família entrou com ação de usucapião. Nunca fizemos isso. Sempre reconhecemos que o imóvel pertence à Diocese [do Alto Solimões]. Além de não caber juridicamente, nunca consideramos que seria a atitude correta.”
Entenda a disputa judicial
De acordo com o advogado da defesa, Fausto Ventura, o imbróglio começou em 2015, quando a Diocese do Alto Solimões notificou a família para desocupar o local. Na época, uma mediação do então prefeito Arthur Virgílio Neto resultou em um contrato temporário de dois anos. Contudo, alegando cláusulas abusivas, a defesa do bar contestou o documento na Justiça com uma ação renovatória.
Em resposta, a Diocese ingressou com uma ação de despejo para uso próprio, manifestando o interesse de instalar no casarão uma representação da instituição na capital.
“O Bar do Armando preenchia os requisitos da Lei do Inquilinato para a renovação compulsória de cinco anos. Porém, o pedido de despejo para uso próprio da Diocese foi julgado procedente, enquanto a nossa renovatória foi rejeitada”, explicou Ventura, destacando que o processo tramitou por quase uma década e que não restam mais recursos cabíveis.
Mais que um comércio, um patrimônio
Ponto de encontro histórico de intelectuais, artistas, jornalistas e políticos, o Bar do Armando projeta Manaus nacional e internacionalmente — tendo sido um dos principais redutos de turistas estrangeiros durante a Copa do Mundo de 2014.
Para a proprietária, o despejo representa uma perda irreparável para a cidade. “Não estamos falando apenas de um comércio, mas de um lugar que faz parte da memória afetiva de Manaus. O Bar do Armando resistiu ao tempo e preservou sua história. É isso que está em risco”, concluiu.
Foto: Omar Gusmão/Divulgação

