Tecnologias de reúso de água garantem qualidade de vida de moradores do semiárido da Amazônia
Muito além dos laboratórios, a ciência encontra espaço na vida das pessoas de diferentes formas, como nas tecnologias de reúso de água. Dois exemplos são os projetos de Saneamento Ambiental e Reúso de Água (Sara), desenvolvido pelo Instituto Nacional do Semiárido (Insa), e o Água de Beber, elaborado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Ambas as unidades são vinculadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Para a tecnologista em Recursos Hídricos do Insa Mariana Medeiros, o projeto Sara dá sentido a todo trabalho feito no instituto. “Essa é a ciência se cumprindo e fazendo seu papel mais bonito, que é justamente mudar a vida das pessoas. E isso não tem preço”, afirma.
No mesmo sentido, o doutor em saneamento e meio ambiente e pesquisador titular do Mamirauá, João Paulo Borges, conta que é gratificante ver a forma como o projeto Água de Beber ameniza o sofrimento das famílias ribeirinhas da Amazônia. “É animador saber que a gente pode contribuir de alguma forma para diminuir a dor das pessoas, para que elas tenham água dentro de casa. É uma tecnologia que nós acreditamos de verdade que pode fazer a diferença”, disse.
Projeto Água de Beber
Desenvolvido durante o período crítico da, até então, pior seca vivida pela região do Médio Solimões (AM), em 2023, o projeto Água de Beber nasceu da necessidade dos moradores locais, especialmente os ribeirinhos. “Naquele momento, nós precisávamos pensar em algo que pudesse amparar as famílias e permitisse que, ao menos, elas pudessem ter água em casa”, conta o pesquisador do Mamirauá.
Foi vendo a dor de tantos que os especialistas em saneamento do instituto idealizaram um kit que simula uma estação de tratamento de água convencional. Ele é composto de 200 gramas de sulfato de alumínio, o principal agente de tratamento; 100 ml de hipoclorito de sódio, o agente desinfectante; um copo dosador; uma seringa; um tecido para filtrar; e um guia prático e ilustrado de tratamento emergencial.
“O kit de tratamento emergencial permite tratar até 6 mil litros de água de acordo com as orientações da Organização Mundial da Saúde. Essa quantidade garante água potável por mais de 80 dias para uma família de cinco moradores”, explica o pesquisador.
Hoje, o kit é um produto aberto que está disponível para que outras instituições também possam replicá-lo e aplicá-lo durante eventos extremos. “O instituto dá suporte àqueles que têm interesse em aplicar o kit, orientando e supervisionando a montagem e auxiliando no uso”, finaliza Borges.
Projeto Sara
Ao contrário da região amazônica, o semiárido, principalmente no Nordeste, convive com a seca há anos. Além disso, a área ainda enfrenta a falta de saneamento. E foi nesse contexto que o Sara se desenvolveu.
“O projeto nasceu para responder a dois grandes desafios da região. De um lado, temos a escassez de água, que é consequência das baixas precipitações, chuvas irregulares e altas taxas de evaporação características da localidade. Por outro lado, a gente também tem baixos índices de saneamento, já que cerca de 80% da população rural, por exemplo, ainda não tem esgotamento sanitário adequado”, explica a tecnologista em Recursos Hídricos do Insa Mariana Medeiros.
Segundo a pesquisadora, o projeto, lançado em 2016, coleta e trata o esgoto doméstico rural gerado nas residências e transforma o que antes era um problema, em uma fonte contínua de água para irrigação das plantações de pequenos produtores. “Com o sistema, aquela água que antes era desperdiçada, ia para uma fossa ou era lançada ao redor das casas e contaminava o solo, ganha um destino muito mais digno, produtivo e eficiente”, afirma Medeiros.
Ainda de acordo com a especialista, os impactos do sistema são visíveis no meio ambiente, na saúde pública, na segurança hídrica e no desenvolvimento econômico local. “Com o tratamento do esgoto rural de forma adequada, nós eliminamos problemas de contaminação do solo e das águas e, ao mesmo tempo, reduzimos as doenças transmitidas pela água. Além disso, ainda conseguimos dar às famílias uma fonte contínua de água para a irrigação de alimentos que servem para a base alimentar das pessoas e dos animais”, disse a pesquisadora.
O Sara atua de forma a reduzir os constituintes indesejáveis do esgoto doméstico, mas, ao mesmo tempo, preservando a água e nutrientes essenciais para a agricultura. “O esgoto vem das comunidades, passa primeiro por caixas de gordura e entra em um tanque de equalização, que mistura todas essas águas e ao mesmo tempo retém boa parte dos sólidos que são sedimentáveis e vão para o fundo do tanque”, inicia a pesquisadora.
“De lá, o efluente segue para um reator, onde as próprias bactérias fazem a decomposição da matéria orgânica ali presente. Na sequência, a água passa pelas lagoas de polimento, que são tanques abertos, onde a radiação solar, temperatura e pH elevados são responsáveis por fazer o decaimento dos microorganismos patogênicos, que são aqueles que podem oferecer riscos à saúde. E, por fim, o resultado de todas essas etapas é uma água tratada”, finaliza o processo.
Atualmente, o projeto conta com 410 unidades instaladas ou em processo de instalação em nove estados do semiárido, sendo oito da região nordeste e uma no norte de Minas Gerais.
Fonte:
MCTI

