Amazônia Azul: um patrimônio presente no cotidiano

Para grande parte da população brasileira, a relação com o oceano é direta. Pescadores artesanais, marisqueiras, povos indígenas e outras comunidades tradicionais têm nos ambientes costeiros parte importante de sua alimentação, trabalho, subsistência e cultura. Mas a conexão com as massas de água imensas sobre o globo não termina onde acaba a faixa litorânea: mesmo quem vive centenas de quilômetros distante do mar depende, de diferentes formas, dos processos, recursos e serviços associados ao oceano. Boa parte deles pertence a uma região conhecida como Amazônia Azul.

O conceito reúne as águas jurisdicionais brasileiras, incluindo o mar territorial, a zona contígua, a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) e a plataforma continental. Ele pode alcançar cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados quando considerada a extensão da plataforma continental reivindicada pelo Brasil junto à Organização das Nações Unidas (ONU). Essa é a segunda matéria de uma série que aborda a região. para saber mais sobre o conceito, clique aqui.

Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, cerca de 111,3 milhões de pessoas — 54,8% da população brasileira — vivem em municípios a até 150 quilômetros do litoral. “A principal influência da Amazônia Azul é na regulação do clima do planeta, afetando quem vive perto ou longe da zona marinha”, explica o professor da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Biodiversidade da Amazônia Azul (INCT-BAA) e integrante da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), Eduardo Secchi. A unidade de pesquisa é vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Uma relação que vai além da costa
A influência do oceano sobre o cotidiano ocorre de diferentes maneiras. Processos que ocorrem no ambiente marinho ajudam a moldar condições que chegam à atmosfera e interferem no clima. Ao mesmo tempo, atividades desenvolvidas no mar e na costa estão conectadas a cadeias de produção, abastecimento e serviços que alcançam diferentes regiões do País.

É o caso da alimentação. A pesca e a aquicultura fazem parte das atividades relacionadas ao oceano e dependem do funcionamento dos ecossistemas marinhos. Para as comunidades que vivem diretamente desses recursos, essa relação é imediata. Para quem está distante da costa, ela pode aparecer de forma menos evidente, por meio dos alimentos que chegam ao mercado e integram a rotina das famílias.

A relação também está presente na energia. As reservas de petróleo e gás natural exploradas no ambiente marinho, especialmente na região do pré-sal, ainda fazem parte da matriz energética brasileira. Ao mesmo tempo, o espaço marítimo apresenta possibilidades de expansão de empreendimentos de energia renovável.

“Apesar da necessidade de uma substituição por fontes de energia mais limpas, essa transição ainda levará anos. São as reservas de petróleo e gás natural exploradas em nosso meio marinho, sobretudo no pré-sal, que abastecem grande parte da matriz energética do País”, afirma Secchi.

O oceano também participa das cadeias de transporte e comércio. Mercadorias que circulam entre diferentes partes do Brasil e do mundo dependem de uma infraestrutura que inclui portos e rotas marítimas. Dessa forma, ainda que uma pessoa nunca tenha trabalhado no mar ou sequer viva em uma cidade costeira, sua rotina pode estar conectada às atividades no ambiente oceânico.

O clima que atravessa o território
A distância do litoral também não impede que o oceano influencie as condições ambientais de outras regiões brasileiras.

A interação entre oceano e atmosfera participa da dinâmica climática, e informações produzidas a partir da observação do ambiente marinho contribuem para compreender e prever condições meteorológicas. Temperatura da superfície do mar, correntes, salinidade e circulação das águas são alguns dos dados utilizados em modelos meteorológicos e climáticos. O oceano representa mais de 96% de toda a água presente na Terra e absorve 90% do excesso de calor na atmosfera.

Na prática, isso significa que o conhecimento sobre o oceano pode ajudar a compreender condições que afetam cidades e áreas rurais muito distantes da costa. Essa dependência também pode ser observada na relação entre o oceano e a segurança alimentar. Conhecer as espécies marinhas, seus ciclos e a dinâmica dos ambientes em que vivem permite produzir informações que ajudam a orientar o uso dos recursos pesqueiros.

Para quem vive diretamente da pesca, esse conhecimento pode significar a manutenção da atividade e dos estoques naturais. Para o restante da população, significa contribuir para que os recursos marinhos continuem disponíveis no longo prazo.

Um patrimônio que faz parte da vida brasileira
A Amazônia Azul também está presente nas dimensões sociais e culturais. Para comunidades costeiras e tradicionais, o oceano está associado não apenas ao trabalho e à alimentação, mas a conhecimentos, práticas culturais e modos de vida construídos ao longo de gerações.

Aproximar a sociedade dessa realidade é parte do desafio de construir uma cultura oceânica. Conhecer a Amazônia Azul significa reconhecer que o oceano não é um espaço distante e isolado, mas um ambiente conectado ao território e às atividades humanas.

Como resume Secchi, “O Brasil é um país altamente dependente de recursos e serviços ecossistêmicos provenientes da Amazônia Azul.” Essa conexão ajuda a explicar por que conhecer o oceano interessa a todo o País — esteja o cidadão a poucos metros da costa ou a centenas de quilômetros dela.

Fonte: MCTI

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